Após a nova resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que tirou a exigência das autoescolas para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o setor já vê os primeiros impactos da mudança. Segundo Márcio Manoel Campos, presidente da Associação das Autoescolas de Mato Grosso, 30 autoescolas já fecharam no estado e outras devem fechar nos próximos meses.
Agora, o curso teórico está disponível na internet e as aulas práticas passam a um mínimo de duas horas. Antes, eram necessárias 20 horas de aulas práticas. Uma das justificativas da mudança era de que o custo ficaria mais barato. De fato, em Cuiabá e Várzea Grande, o pacote para tirar a primeira habilitação de carro e moto passou de uma média de R$ 2,7 mil para R$ 400. No entanto, em entrevista, Márcio defendeu que a mudança é extremamente populista e não favoreceu quem mais precisa, já que o preço único da aula aumentou e a qualidade diminuiu.
“Antigamente se tinha 20 aulas, hoje são duas. O preço não diminuiu, ele só aumentou, porque o valor da aula subiu. Se uma pessoa for comprar as mesmas 20 aulas hoje, vai ver que o preço fica bem mais alto. E conforme a qualidade, eu falo da aula teórica. Antes eram 45 horas de aula onde o aluno aprendia primeiros socorros, legislação, mecânica básica, direção defensiva. Já hoje, com o aplicativo do governo, a pessoa se forma em uma hora e não aprende quase nada”, afirma.
Antes, os pacotes eram vendidos a cerca de R$ 2,7 mil, mas cobriam as 20 aulas de carro e moto e incluía todas as taxas e exames do Detran. Cada aula saía por cerca de R$ 80. Agora, o pacote mais barato, com as duas aulas obrigatórias, pode ser encontrado cerca de R$ 500 e o aluno tem que custear as taxas e exames do Detran. Caso um aluno precise de mais aulas, poderá chegar a pagar mais caro que quando era antes.
“E o pior disso tudo é que ela não favoreceu as pessoas que mais precisam. Pelo contrário. Uma pessoa que não tem carro em casa e precisa tirar a CNH. Acha que em duas aulas ele consegue aprender alguma coisa? Não. Não vai aprender”, dispara.
Ainda conforme Campos, o setor sente reflexos fortes da mudança. Até ano passado, eram 276 autoescolas em todo o estado. Após isso, cerca de 30 já fecharam e mais devem fechar se o cenário não mudar. “Está havendo demissão em massa. Como diminuiu o número de aulas, não se precisa mais de tantos instrutores. A procura também está mais baixa”, lamenta.
Outra dificuldade passada pelo setor são os veículos adaptados. Com o uso sendo menor, muitos recorrem às vendas dos carros e motos. No entanto, como são adesivados e têm todo um aparato de segurança, o custo é alto. “Às vezes a venda não é a solução pelo custo. Eu posso colocar eles pra locação, um motorista de aplicativo pega e paga R$ 600 por semana, mas é complicado, por conta da adesivagem”, salienta.
“Cada autoescola vai ter que arrumar um mecanismo para entender como vai sobreviver nessa nova regulamentação”, destaca.
Demissões em massa
Márcio é dono de uma rede de autoescolas em Cuiabá. Ao todo, ele tinha 24 funcionários, entre secretárias e instrutores. Desde a mudança, já demitiu quatro professores.
Outro empresário que foi atingido pelas mudanças é Manoel Silva, dono de uma autoescola localizada no Centro de Várzea Grande. A empresa não era grande, tinha 4 funcionários e, desde a mudança, teve que dispensar todos. “Quando a gente soube que ia mudar, a gente achou que ia ser bom. Não éramos contra ter menos aulas. Mas só duas aulas obrigatórias foi muito agressivo”.
“Eu ainda estou dando aulas, mas tive que dispensar os outros instrutores. O número de alunos caiu muito. Antes a gente tinha 50, 60 alunos para as aulas teóricas e agora não temos nenhum. Ou seja, a mudança desempregou os teóricos, as empresas que faziam as apostilas também sofrem com prejuízos”, lamenta.
Manoel tinha cinco carros na sua frota, sendo três carros e duas motos. Com a demissão dos funcionários, ele vai vender três veículos e ficar com um de cada para dar as aulas. “Ainda vou continuar no ramo, mas só eu”, completa.

