A descoberta desmonta a tese de coincidência ou mérito acadêmico defendido pela defesa dos envolvidos. Uma análise dos metadados do arquivo revela que ele foi criado em 15 de abril de 2024 — mais de um mês antes da aplicação das provas objetivas, ocorridas em maio daquele ano. O cruzamento de dados confirma que os 20 nomes listados no arquivo específico, com especificações cirúrgicas, aos candidatos homologados como aprovados e convocados pela administração municipal em junho e julho de 2024.
A materialidade da fraude é reforçada pela linha do tempo de manipulação do editorial, reconstruída pelos pesquisadores. Apenas seis dias antes da criação do arquivo com os “vencedores” — em 9 de abril de 2024 — a Prefeitura publicou uma retificação abrupta no edital, inserindo, sem novo estudo de impacto ou refazimento da licitação, à vaga para o cargo de Advogado do Município.
Documentos oficiais confirmam que, após essa inclusão de última hora, o primeiro colocado para a carga, que foi nomeado pela Portaria nº 159/2024 em agosto do mesmo ano. A investigação aponta que a inclusão da carga e a criação da lista de beneficiários foram atos coordenados para aparelhar o setor jurídico municipal.
Além da lista, os acordos de polícia que os beneficiários possuem vínculos diretos de parentesco ou política externa com agentes públicos que participaram do planejamento da contratação do banco.
O inquérito, agora sob condução direta do delegado titular de Ribeirão Cascalheira, expõe a fragilidade deliberada dos controles internos. A contratação do IBRASP não ocorreu via concorrência ampla, mas através de uma dispensa de licitação questionável.
Em depoimento coletado pelo Noticias Interativa em maio de 2025, a ex-prefeita Luzia Nunes Brandão (cuja gestão encerrada em dezembro de 2024) alegou que o processo foi técnico e orientado pela procuradoria jurídica. No entanto, o certo foi vencido pelo IBRASP com uma diferença irrisória de apenas R$ 30,00 em relação à segunda colocada — um compromisso clássico de licitações de cobertura (propostas de cobertura), onde empresas do mesmo grupo simulam concorrência para legitimar a fraude.
A investigação revelou ainda:
– Orçamentos Divergentes: Escopos de serviço incompatíveis com a complexidade do concurso.
– Inversão de Fases: A contratação do banco precedeu etapas legais obrigatórias.
– Estrutura de Fachada: Diligências nos endereços do IBRASP encontraram locais sem estrutura para a segurança de provas, operando com sistemas que permitiam a edição posterior de notas.
O esquema em Ribeirão Cascalheira não é um fato isolado, mas parte de uma engrenagem maior que opera no Norte de Mato Grosso. As investigações conectam o caso à Operação Múltipla Escolha, deflagrada em dezembro de 2025 pela Polícia Civil em Novo Mundo (MT).
Naquela ocasião, a polícia apreendeu celulares e cartões-resposta em grupo de donos da empresa Gama Consultoria (ligada ao mesmo grupo familiar do IBRASP). Em Novo Mundo, a fraude beneficiou diretamente a família do vereador Edemar Biazoto, com a aprovação de sua esposa e dois filhos, replicando o modus operandi de aprovação em bloco de familiares de políticos identificados em Ribeirão Cascalheira.
Com a transferência probatória do arquivo de 15 de abril, a Polícia Civil prepara o encaminhamento de novos desdobramentos ao Ministério Público do Estado (MPMT). A tendência jurídica é a anulação completa dos atos de nomeação decorrentes do Concurso 001/2024 e o indiciamento dos envolvidos por fraude em determinado interesse público, associação criminosa e improbidade administrativa.
A defesa da ex-prefeita Luzia Brandão e dos representantes do IBRASP não se manifestou sobre a descoberta do arquivo digital até o fechamento desta reportagem.
Fonte: Fala Aldemar

