A inversão de papéis na política brasileira não é apenas um fiasco — em muitos casos, chega a ser trágica. O país precisa, urgentemente, de uma depuração política, mas também de eleitores mais atentos e conscientes do verdadeiro papel de quem ocupa cargos públicos.
A Constituição Federal é clara. Nos artigos 29 a 31, define-se que cabe aos vereadores fiscalizar a aplicação dos recursos públicos e criar ou aprovar leis que beneficiem a população que os elegeu. Esse é o núcleo da função parlamentar municipal. Todo o resto é acessório.
Com o passar dos anos, criou-se uma narrativa equivocada: vereadores passaram a ser reconhecidos como “buscadores de recursos” junto às esferas estadual e federal — uma atividade paralela, que não substitui, em hipótese alguma, o dever de fiscalização. Agora, o cenário vai além: vereadores tapando buracos em vias públicas, assumindo funções que são, constitucionalmente e administrativamente, do Poder Executivo.
Enquanto isso, fica a pergunta que realmente importa: esses mesmos vereadores saberiam responder, de forma clara e convicta, onde estão sendo aplicados 100% dos recursos arrecadados pelo município?
Prefeitos são eleitos para administrar a cidade. Isso inclui tapa-buracos, manutenção urbana, obras e serviços. Quando vereadores assumem esse papel, não há eficiência — há maquiagem política. É a chamada “boniteza”, como diria a sabedoria popular: um teatro para vídeo e redes sociais, que pouco contribui para resolver os problemas estruturais.
Essa inversão, longe de ser inofensiva, induz ao atraso. Passam-se décadas e pouco muda. Basta atravessar municípios como Nortelândia para perceber que, apesar de um povo trabalhador, o progresso não acompanha o tempo. E não é por falta de esforço da população.
Há ainda outro ponto sensível: o custo. O rendimento de um vereador é significativamente superior ao de um trabalhador braçal que executa, com técnica e profissionalismo, o serviço de tapa-buracos. Se a lógica fosse coerente, talvez fosse mais eficiente eleger profissionais da área ou, de forma ainda mais racional, fechar a Câmara e utilizar os recursos economizados para contratar empresas especializadas. O dinheiro sobraria — e o asfalto também.
Mais grave que isso é o papel de “assistencialista intermediário” assumido por muitos agentes políticos. Mesmo com secretarias estruturadas, como a de Assistência Social ou Saúde — que custam caro ao município e possuem profissionais capacitados para orientar, encaminhar e atender —, esse trabalho é frequentemente sequestrado por políticos. Ao intermediar demandas, acumulam bônus eleitorais, cabrestam votos futuros e se escondem de suas verdadeiras funções, muitas vezes para blindar seus prefeitos de estimação.
O problema se agrava porque parte da população não compreende o funcionamento da política, enquanto outra parte compreende, mas finge não ver, por conveniência ou benefício próprio. No fim, as duas camadas se calam — ou, pior, defendem o erro como se fosse virtude.
Levar isso para o lado sério é inevitável: não se trata de uma simples ação simbólica, mas de uma distorção institucional que enfraquece a democracia local e engana o eleitor.
Que o Brasil consiga, um dia, virar essa página. Que a política deixe de ser espetáculo e volte a ser instrumento. Só assim poderemos, finalmente, escrever uma bela história — não para vídeos, mas para o futuro.

