Todos os seres humanos afligem-se com algum tipo de perda durante a vida, o luto vem a ser um processo de elaboração permeado por um conjunto de reações frente a uma perda, poderíamos dizer que é como a cicatrização de uma ferida.
São diversas as situações da nossa vida em que o processo do luto esta presente tais como: Morte de um familiar, aborto, processos de separação conjugal, perda de um emprego ou até mesmo situações em que há perda parcial ou total de alguma função motora ou sensorial do nosso corpo, como, por exemplo, perder a visão. Diversas podem ser as perdas que podemos enfrentar e constantes durante a vida.
Dentre as perdas que passamos, a experiência da perda de um ente querido é uma das situações mais difíceis que a vida pode trazer, uma constatação difícil de aceitar, principalmente nas culturas em que a morte tende a permanecer no “não falado”.
Quando falamos sobre a morte é preciso pensar que ela pertence à vida, como pertence o nascimento. O luto é uma experiência natural e esperada em resposta ao rompimento de um vínculo, e é essencialmente um processo pessoal, assim como é vivenciar qualquer experiência de dor que passamos. O modo como o luto aparece em cada pessoa vai depender dos recursos internos que a pessoa dispõe naquele momento e dos vínculos que foram estabelecidos com a pessoa que morreu. Outras variáveis como a causa da morte, histórico de outras perdas ou doenças como, por exemplo, a depressão também pode influenciar. Nestes casos, o acompanhamento de um profissional especializado pode auxiliar neste processo.
Com duração variável, o luto é, portanto, um processo necessário e sua importância reside na possibilidade de o indivíduo viver essa transição de maneira a poder incluí-la em sua vida. O luto desvela um movimento singular, cada pessoa percorre um caminho para elaboração do luto, algumas pessoas podem viver o “luto normal”, outras o dito “luto complicado” Worden (2013).
O sofrimento intenso é, muitas vezes, paralisante o que não significa que seja patológico, deve-se tomar cuidado com ideia de que o luto é uma doença, pois a grande maioria das pessoas passa pelo processo do luto de um modo “saudável”, o que pressupõe vivenciar o sofrimento, podendo a pessoa manifestar um conjunto reações frente a perda tais como: Mistura de emoções, sintomas desespero e raiva, lamentos e desorganização, somente a posteriori é que começa aparecer certa reorganização interna. Por um tempo (o tempo do luto) é esperado que isso aconteça e, é importante que aconteça, pois possibilita ao enlutado a chance de uma nova história, posteriormente chegará um momento (com um tempo relativo e particular) em que estas reações se atenuam e a pessoa consegue ir retornando ao seu dia a dia.
No processo adequado de luto vivenciá-lo com sofrimento não é um problema, pois quanto maior eram os laços afetivos com quem morreu, maior os sentimentos e a quantidade de energia necessária para o enfrentamento do processo do luto.
Alguns casos de luto vão merecer atenção e nestes o acompanhamento psicológico torna-se imprescindível! Para algumas pessoas o luto pode ser pode ser tão violento que podem demorar muitos anos ou até mesmo nunca terminar, geralmente mortes repentinas, violentas, ou de pessoas jovens podem provocar uma maior dificuldade na elaboração deste processo. Nestes casos, o sofrimento vivenciado pode vir desencadear outras doenças de ordem psicológica e emocional, para esses enlutados o acompanhamento de profissionais da saúde nos processos de luto vai ser importante.
De modo geral os recursos da psicoterapia auxiliam as pessoas nos processos de luto, pois proporcionam um espaço de escuta e o acolhimento necessário a essa fase complexa da vida, permitindo a fala do enlutado e a divisão da sobrecarga psíquica, possibilita auxílio na significação da morte, na legitimação da dor.
Os rituais de despedida da pessoa que morreu são importantes para o processo do luto, assim como estar perto de quem se tem vínculos afetivos como amigos e outros familiares, gestos de carinho e apoio também são positivos buscando sempre que possível respeitar os momentos em que a pessoa enlutada quer estar sozinha. Além disso, sabe-se que a busca de atividades que tragam um novo sentido para a vida tem impacto positivo e também podem auxiliar, como grupos de apoio, esportes, religiões, cursos, enfim a ideia é reconstruir um sentido.
Outro medicamento poderoso para a dor referido por alguns enlutados é poder ajudar ao próximo e compartilhar os aprendizados, ou seja, permitir transformar o sofrimento em boas ações também é um dos caminhos de elaboração do luto, a ideia é fazer da dor uma possibilidade de aprendizado e de reconstrução. É preciso lembrar-se de que, embora alguém importante tenha ido, a própria vida é também muito importante.
“A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia, que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe… A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada de quem a gente ama. É preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama.”: Texto a chegada e a despedida, Rubem Alves.
Referências: WORDEN, J. William. Aconselhamento do luto e Terapia No Luto. Um Manual Para Profissionais da Saúde Mental. São Paulo: Roca, 2013.

