QUERÊNCIA (MT) – A briga por divisas e posse na área da Fazenda Poconé, teve novos desdobramentos depois que o FolhaMax divulgou a existência de um contrato de honorários atribuído ao advogado Roberto Zampieri com bônus de 37% sobre a área que viesse a ser recuperada, além de 1.300 hectares e R$ 500 mil. A reportagem “Advogado é suspeito de negociar sentença em disputa por fazenda no Araguaia”, não exibiu o documento, mas associa o acerto ao espólio de Itagiba Carvalho Diniz e a uma estratégia para retomar 7,2 mil hectares que hoje se sobrepõem a outras fazendas, de terceiros, não citados anteriormente nos processos originários, que possuem propriedade e posse de lotes no Projeto Querência III.
Em ação demarcatória iniciada em 1997, a Justiça homologou laudo pericial que delimita a Fazenda Poconé (matrículas 2.453 e 2.454) em 7.234 ha e aponta 4.958,75 ha ocupados em tese por “terceiros”, hoje objeto do cumprimento de sentença.
Em outubro, o TJMT, em decisão de 2ª instância, determinou o prosseguimento “até a restituição material da posse” e ordenou ao juízo local “medidas concretas para impedir qualquer inovação no estado de fato do imóvel”, sem alterar marcos, preparar solo ou iniciar plantio até que as delimitações sejam checadas tecnicamente. A decisão também autorizou apoio policial para dar efetividade. Com base nessa ordem, o juízo de Querência expediu mandado de desocupação e constatação, fixando 15 dias para saída voluntária de quem estivesse dentro da área em questão e listou providências para registrar ocupantes, fotografar o estado do imóvel, interromper atividades irregulares e acionar a Patrulha Rural se necessário, o que obrigou os produtores que á décadas detém a propriedade e a posse, a ficarem na condição de que como se “posseiros” fossem, gerando insegurança jurídica.
Paralelamente, produtores que não eram partes nas ações originárias ingressaram com embargos de terceiro para suspender os atos de desocupação apenas sobre as áreas de terra até que a perícia diga se há ou não coincidência com o perímetro executado. A decisão de 30/10/2025 (liminar) registra múltiplos embargos por dependência, todos alegando propriedade, posse antiga, de boa-fé de forma mansa e pacífica sem oposição.
Quem foi Roberto Zampieri e por que seu nome pesa neste processo
Zampieri, assassinado a tiros em 5 de dezembro de 2023, virou peça-chave de uma investigação federal sobre venda de decisões e tráfico de influência em MT e em tribunais superiores. A Polícia Federal e a imprensa nacional registram que fases deflagradas em 2024–2025 mapearam pagamentos e intermediações para favorecer partes em processos, além de vazamentos de informações sigilosas.
Em maio de 2025, a PF prendeu suspeitos de envolvimento na morte de Zampieri. O homicídio foi tratado como derivação do mesmo ambiente criminoso investigado pela Sisamnes. O crime desencadeou novas linhas de apuração sobre venda de decisões e atuação de lobistas e agentes públicos. As investigações apontaram uma grandiosa “taxa de sucesso” fora da curva, redes de captação de clientes com promessas de êxito em instâncias superiores e movimentações financeiras atípicas conectadas a disputas fundiárias de grande valor, ligadas ao falecido advogado. Em outubro de 2025, outra matéria do FolhaMax apontou mensagens e transferências associadas a um litígio de 5 mil hectares. Já em 2024, a Veja narrou a parceria de Zampieri com operadores para “viabilizar” decisões no STJ. Essas peças contextualizam o risco sistêmico: quando honorários e bônus atrelados à área ganham escala, a litigância pode se tornar um negócio com incentivos tortos.
Segundo o FolhaMax, o contrato assinado em 2020 teria sido a base de uma estratégia para “retomar” terras vinculadas ao espólio de Itagiba Carvalho Diniz, com bônus escalonado para Zampieri se a área recuperada superasse a meta, além de 1.300 ha e R$ 500 mil. A matéria coloca esse documento no centro de uma nova rodada de intimações que atingiu produtores na região. O site não anexou o contrato, ponto crucial para aferir abrangência, partes e condições do acerto.
Operação Sisamnes
Sisamnes é o nome dado pela Polícia Federal (PF) a uma investigação sobre suposta venda de decisões judiciais, tráfico de influência e vazamento de informações processuais sigilosas. As apurações miram uma rede que envolveria advogados, lobistas, empresários, assessores de gabinetes e magistrados, com atuação em Mato Grosso, Distrito Federal e outros estados. A PF descreve pedidos de valores para “beneficiar partes em processos”
por meio de decisões favoráveis e também o repasse antecipado de minutas/andamentos, violando sigilo.
A operação ganhou corpo nacional em 26 de novembro de 2024, quando a PF deflagrou a 1ª fase com ordens judiciais em MT, DF e PE. Em 20 de dezembro de 2024, veio a 2ª fase, com novas medidas em Cuiabá/MT. As ações são conduzidas pela PF, com atuação do Ministério Público (PGR/MPF) e decisões judiciais que autorizam buscas, quebras de sigilo, bloqueios e afastamentos.
Corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa, exploração de prestígio e violação de sigilo funcional, a depender da participação de cada investigado e da fase, são os objetos de apuração. A própria PF, em nota (nov/2024), fala em “solicitação de valores” para decisões e em “vazamento de informações sigilosas. O fato se desencadeou após o assassinato de Roberto Zampieri, advogado morto a tiros em 5/12/2023, em Cuiabá. O caso do homicídio, segundo PF e imprensa, abriu linhas de investigação sobre venda de decisões e tráfico de influência em cortes superiores. Sobre o Modus operandi investigado, concentram-se os fatos de captação de causas de alto valor econômico, intermediação paga por resultados, com promessas de influência em gabinetes, antecipação/vazamento de minutas e informações processuais, movimentações financeiras atípicas (saques em série, contratos de “êxito”, recompensas escalonadas), mensagens no WhatsApp para negociar andamentos/decisões em prazos muito curtos. Até então, a PF realizou diversas ações de buscas e apreensões, quebras de sigilo, afastamentos cautelares de magistrado em MT, bloqueio/sequestro de bens (casa dos R$ 30 milhões).
Por Interativa FM

